RESAB REALIZA PLANEJAMENTO ANUAL

Na manhã de ontem, 04, a Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB) da região dos Inhamuns e Crateús realizou planejamento anual, além de definir a equipe de secretaria executiva provisória, que vai animar os processos do coletivo até a assembleia, que está agendada para o dia 06/05. Participaram representantes de secretarias municipais de educação do território, da Faculdade de Educação (FAEC) da Universidade Estadual do Ceará – Campus Crateús, e da sociedade civil.

Cinco pessoas foram eleitas para compor a secretaria provisória da RESAB regional: Paulo Cesar de Oliveira, da Cáritas Diocesana de Crateús, Fábio Gomes Siridó, da Secretaria Municipal de Educação de Novo Oriente, Thais Cristine da FAEC, Mardones Servulo, do Instituto Bem Viver e Luzanira Martins de Sena, da Secretaria Municipal de Educação de Tamboril. Entre as tarefas da equipe estão preparar a assembleia, e ser a referência da rede para acompanhar os processos envolvendo Educação Contextualizada nos municípios.

“Também pensamos sobre o Seminário de Educação Contextualizada, que será realizado durante a programação da Feira [da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária] que será realizada no início de junho. Acredito que demos um passo muito importante para construir um caminho para uma educação libertadora, não só em nossa região, mas em sintonia com os 20 municípios que a equipe pedagógica da Cáritas acompanha, através do projeto Contexto”, explicou Paulo Cesar.

Democracia e Política: quando a arte sai pela porta dos fundos

“Convém recobrar a resposta de Dom Helder quando buscava analisar a essência e não a superfície. Se o que interessa é ‘a ausência de roupa para vestir o nu, e não quem queira retirá-la’, então percebe-se que a peça reduziu a expectativa da arte, perdeu sua autonomia e de quebra, tornou seus resultados politicamente frágeis, pois retira seu precioso véu”, escreve Rafael dos Santos da Silva, professor da Universidade Federal do Ceará – UFC e doutorando em Sociologia na Universidade de Coimbra.

Eis o artigo.

Certa vez, tentaram envolver Dom Helder Câmara em uma polêmica dirigindo-lhe a seguinte pergunta: “o que o senhor acha do topless?” Na sua sabedoria, ele respondeu: “estou preocupado com quem não tem roupa para usar. Mas quem tem e quer tirar eu não me importo”. Com esta altivez gostaria de propor observação quase analítica sobre o especial de natal do grupo Porta do Fundos. Sob esse ponto proponho concentrar-me nos aspectos sociológicos em que a questão fundamental se relaciona as dimensões da democracia e da política enquanto mediadoras da arte. Logo, antecipo, o que realmente me importa não é a roupa retirada, mas a ausência dela.

Inicialmente algumas questões precisam ser estabelecidas. A primeira passa por insistir que não se trata de oportunistas, mas de um grupo correto que vem ao seu modo tentando imprimir narrativas sociais, e por isso precisa ser respeitado. Depois, a análise é um recorte ao especial de 2019, focando-se exclusivamente nesse objeto. Essa peça se vale da sátira para propor uma releitura do cristianismo, utiliza o humor e o sarcasmo para estabelecer narrativas daquelas digamos… “oficial”. Ideia interessante, mas possui um erro crasso! Em tempo, cabe ressaltar a importância política de outros trabalhos do mesmo grupo, aquelas sim podem ser chamadas de arte. Portanto, a crítica que segue não visa atingi-los ou desmerecê-los. Ao contrário, é preciso ter cuidado para não os jogar aos leões e de alguma forma legitimar a perseguição e a violência de seus algozes.

Em seguida, tem-se a questão da censura. Sabe que toda censura é essencialmente ruim, pois tenta estabelecer a proibição pela força, sempre se valendo de métodos e técnicas arbitrárias a paralisar a circulação da informação. No fundo o objetivo é tolher aquilo que é mais básico em democracia: a liberdade de expressão. Na prática, há um pouco de cesarismo na cabeça de todo censor, porém ele nunca espera, mas sempre acontece é que tal atitude joga mais luz sobre o objeto censurado do que realmente o elimina. Sempre foi assim, desde a história da maçã no paraíso, até as tentativas policialescas sobre as drogas. Todas resultaram em desobediência.

Foi exatamente essa desobediência que me levou a assistir o vídeo em questão, pois antes da censura o evento não havia chamado minha atenção. Ao meu ver o vídeo não deturpa a essência do cristianismo, apenas coloca os personagens em outras posições das moralmente aceitas. Pura bobagem!

Em primeiro plano quero chamar atenção à dimensão contida na liberdade de expressão. Trata-se de um bem valiosíssimo e inegociável em qualquer contexto, sobretudo no estado que se pretenda democrático. Inegociável! Nesse ambiente, deve ser assegurado o pleno exercício da liberdade em todas as suas dimensões, incluindo a de se expressar. A sociedade moderna sempre buscou a liberdade para o centro e, portanto, sua referência em termos de civilidade. Aqui, a liberdade de expressão foi colocada como ícone e por assim dizer merece ser alimentada em todos seus sentidos, mas, atenção! Não em todos os seus níveis. Por quê? Porque, paradoxalmente, a democracia exige observar limites. Boaventura Sousa Santos nota que no Século XX a democracia foi muito utilizada para legitimar atos muitas vezes pouco democráticos. O liberalismo econômico, por exemplo foi quem mais apelou à democracia como forma a dar uma capa de verniz as suas tramas. Ditadores, africanos e sul-americanos perceberam, igualmente, essa possibilidade. Logo, é preciso ter em mente que nem sempre aquilo que colocamos na conta da democracia é de fato democrático.

O ponto alto da democracia consiste exatamente em estabelecer a tênue linha dos limites sociais. Amartya Sen credita à democracia o ambiente necessário para “preparar qualquer país” a enfrentar suas realidades. Isso não é fácil! Porém, se fosse diferente teríamos uma sociedade totalitária e não democrática, onde os limites seriam mediados pela força e não pelas pluralidades. Portanto, democracia não é ausência de fronteiras, mas a própria expressão da liberdade fruto do movimento político a partir do tecido social, capaz de estabelecer ao estado, em disputa, suas narrativas.

Noutro polo, tem-se a dimensão política da arte e nela a constituição do indivíduo que busca razão e emoção, mas também participação e emancipação. A relação entre arte e política se apresenta dinâmica, enquanto uma recorre à criação, a outra à repetição/ação; a primeira busca o absoluto, enquanto a segunda reclama o campo da concretude. Arte e a política se atraem e se repelem numa dança dialética para compor as tratativas sociais. Novamente Boaventura Sousa Santos atesta que “a arte sem a política é burra, e a política sem arte é pobre”. O autor chama atenção aqui para a instrumentalização da arte pelo mercado no exato limite em que esta se presta “a um mero desperdício da experiência humana”. Em outras palavras, o sociólogo induz que “se a arte não estiver comprometida com as inquietações sociais, assume apenas o papel de uma peça publicitária”, adotando outro caminho que pode levá-la a servir aos senhores da casa grande. Hitler foi quem melhor entendeu isso na primeira metade do século XX. Antes, o estado romano havia feito bem esse dever de casa.

A arte é acima de tudo a busca da imaginação, a possibilidade de ver além da questão determinada. Como bem retrata Benjamin: para ver a “arte não tem que se levantar o véu, mas antes elevar-se a intuição do belo”. Nesse sentido, bem retrata Byung-Chul Han, “o véu é mais essencial do que o objeto velado”. Logo a tarefa da arte sempre busca outros movimentos conduzindo o artista e o espectador a outras possibilidades sociais, ou seja, a arte se faz uma janela codificada a outra dimensão. Quando ela se nega esse caminho, perde sua autonomia, dá-se à manipulação do “gosto ou não gosto”, abre mão do belo e projeta uma janela para si mesma. Nesse quadro, a arte é apenas uma mercadoria, sem imaginação, nem conexão.

Na outra linha, a política, por ser prática, precisa recorrer sempre ao processo de imaginação, e assim fazer uso da arte a fim de criar um mundo possível. Quando essa ligação não ocorre, a busca pelo absoluto cede lugar ao controlador ideológico reduzindo de igual modo o papel do indivíduo a experiências sem sentido. Para Boaventura, esse movimento de separação ocorreu quando ciência moderna de base positivista abriu mão de outras experiências para “reduzir os sentidos”. Segundo o autor, com os sentidos reduzidos “a arte assume um caráter insidioso e apelativo”, virando um mero instrumento da indústria cultural que não tem poupado esforços para submeter as necessidades espirituais às necessidades materiais.

Dito de outra forma, a política sem arte já reduziu o presente digitalizando-o a partir do utilitarismo de mercado em que “os homens cosem apenas com suas retinas”, portanto sem sentido, sem escuta, sem tato, sem cheiro. Apenas com a visão.

Voltando ao Especial de natal de 2019 do grupo Porta dos Fundos, a partir das lentes acima fica a impressão de uma profunda desconexão entre arte e política. Não quero parecer grosseiro, mas percebi apenas merchandising. Me parece que o marketing falou mais alto do que a possibilidade do novo, próprio do encontro entre arte e política, que por sua vez fora reduzido a buscar a mera polêmica.

Há todo direito desses profissionais fazer isso, independente da minha fé. De forma sincera ver Jesus deste ou daquele jeito, com estas ou com aquelas opções, definitivamente não abala meu credo. O centro da questão é outro! Passa por entender que a peça abandonou a possibilidade de fazer arte para fazer negócio. Negou a tarefa de apresentar outro Jesus daquele supostamente conhecido. Aqui ao meu ver está o grande erro do vídeo, ao optar por satirizar o conhecido sem apresentar o novo, portanto, vazio de conteúdo.

Em síntese quero insistir em três elementos finais. O primeiro consiste no fato da democracia ter sido manipulada no seu conceito mais básico de liberdade de expressão para ceder às intempéries da aceitação/negação entre gosto ou não gosto. Em segundo lugar, vem o ponto de vista sociológico; é preciso notar a ausência de resultados positivos para a sociedade, apenas a polêmica, o exagero e o atrito. Em terceiro lugar, a produção em massa – ao modo taylorista – corrompeu a proposta original de apresentar um Jesus diferente, escorregando na despolitização da arte.

Sob meu ponto de vista – que é apenas a vista de um ponto – ao propor uma releitura do cristianismo dessa forma, o grupo abandonou a possibilidade de fazer arte com política e negociou os resultados com o mercado numa verdadeira aposta na polêmica para vender mais… Eis aí o erro!

Finalmente, convém recobrar a resposta de Dom Helder quando buscava analisar a essência e não a superfície. Se o que interessa é “a ausência de roupa para vestir o nu, e não quem queira retirá-la”, então percebe-se que a peça reduziu a expectativa da arte, perdeu sua autonomia e de quebra, tornou seus resultados politicamente frágeis, pois retira seu precioso véu.

Literalmente, a arte saiu pela porta dos fundos.

Chuva no sertão

No Sertão está chovendo.

Há seis meses que não via chuva tão fina e com um cheiro tão fresco. Seis meses sem ter medo de pendurar as roupas para secar e encontrá-las molhadas, sem me preocupar em esquecer o guarda-chuva ou em temer de acordar de manhã e descobrir tristemente que está a chover.

Os Crateuenses perceberam que a chuva estava chegando já ontem ao pôr do sol. Eu caminhava pelas ruas da cidade, em uma tranquila tarde de domingo, mas sentia que havia algo diferente no ar… notei as crianças ouvindo seus avós e olhando para o horizonte, as senhoras recolhendo as roupas penduradas, os meninos estacionando as motocicletas em casa.

Eu não entendia o que era, mas senti uma vibração diferente, senti nas pessoas a emoção de quando nosso cantor favorito chega na cidade ou como quando a pessoa que amamos volta após uma longa ausência. Não prestei atenção e continuei caminhando em direção à casa, sob os olhos curiosos dos moradores da Rua Frei Vidal da Penha, que nesses seis meses me acompanharam com o olhar e com um sorriso.

Estou prestando Servizio Civile Nazionale no projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais construindo o bem-viver, nascido da colaboração entre a Cáritas de Crateús, o CISV e o Conselho Pastoral dos Pescadores, com a ajuda financeira da União Europeia e da Conferenza Episcopale Italiana

O projeto trabalha com pessoas que até alguns anos atrás eram completamente invisíveis aos olhos das comunidades e das instituições que as cercam, já que para quem mora em uma região onde não se fala de nada além da seca, é difícil acreditar que tem pescadores e pescadoras que lutam todos os dias para se sustentar e para não deixar desaparecer á arte da pesca artesanal. E realmente lutam, não apenas com palavras. Nestes anos, os pescadores e pescadores de açude perceberam que essa profissão é digna de direitos e políticas, assim que começaram se organizando e pouco a pouco emergiram da invisibilidade profissional e da escassez de políticas públicas  que os caracterizavam.

As pescadoras hoje têm autoestima e sabem que o sustento das suas famílias também depende delas. Elas não têm mais medo de sair de casa para participar nas atividades que as fazem se sentir bem; ensinaram aos maridos, aos filhos e as filhas a cuidar de si mesmos por alguns dias. Os pescadores enfrentaram a ideia de que as esposas não são propriedade deles e que, se o trabalho ancestral da pesca artesanal ainda existe, é também graças às mulheres. 

Hoje chove no Sertão e, nesta manhã, quando abri a janela, entendi imediatamente de onde vinha a emoção que ontem aparecia nas ruas de Crateús. Coisa de sertanejos, de Cearenses, de interior nordestino; quando chove, ninguém fala de outro assunto. “Não há nada melhor do que ver um açude que enche”, disse-me um pescador. E outro fã de futebol acrescenta: “A chuva é meu gol, é minha Copa do Mundo!”

Não tem preço a ternura que se sente ao ver o olhar aliviado dos idosos, a felicidade das crianças que saem da escola dançando baixo da chuva e o brilho nos olhos de quem observa o céu nublado. Mas não se pode negar que a aridez está cegando o povo nordestino. A seca sertaneja é um problema ambiental que tem repercussões na agricultura e na pesca, causando uma vulnerabilidade social que agora se transformou em um problema político. A estiagem trouxe pobreza e êxodo rural para os grandes centros urbanos, mas não é a única causa pela qual o Ceará é o terceiro estado mais pobre do Brasil e com uma taxa de analfabetismo muito alta.


A desigualdade de riqueza, a distribuição da terra, a falta de políticas públicas e de prevenção fazem parte do “mito da seca”. A maioria dos habitantes não vê ou prefere abaixar os olhos diante da dramática especulação que grupos poderosos de empresários e políticos vêm realizando há anos, explorando o fenômeno para seus próprios interesses econômicos e políticos. A população do Nordeste não precisa de água, mas de soluções que resolvam sua má distribuição e melhorem seu uso. Através da educação infantil nas escolas, é urgentemente necessário desmerecer a história de que a estiagem é a principal causa de pobreza e miséria que paira sobre o território, ou o mito dessa continuará obscurecendo as gerações futuras.

E eu estou aqui há seis meses, um tempo que passou em um piscar de olhos, entre diferentes culturas, mal-entendidos, brincadeiras e abraços. Houve momentos em que desfrutei duma inesquecível sensação de liberdade e felicidade, e outros em que chorei de tristeza e frustração. Vivi pequenas e grandes experiências que me acompanharão ao longo da minha vida, aprendi que a pobreza não existe até que haja solidariedade, que às vezes é necessário um pequeno empurrão para seguir adiante com lucidez e que as injustiças sociais chovem com mais freqüência nas pessoas mais vulneraveis.

No Sertão a chuva está de volta, fraca e calma, porém chuva é! E enquanto escrevo estas poucas linhas, percebo que, para a sociedade sertaneja, a emoção da chuva fresca que contrasta com o sol sufocante é como uma metáfora poética, é um filho que volta para casa depois de anos na cidade, é uma pescadora que frita o peixe recém pescado, é um agricultor que semeia as sementes para cultivar um novo ciclo de vida, é um rádio em um barzinho do interior do Sertão que canta assim:

“Rios correndo

As cachoeira tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

tarde canta, que beleza

Ai, ai, o povo alegre

Mais alegre a natureza”

Por: Angelica Tomassini, Voluntária Italiana

Fotos: Lorenza Strano, assessora de comunicação Cáritas de Crateús