Incidência política pelos direitos e cidadania das pescadoras e pescadores artesanais de açudes.

Ontem, 06, a equipe do Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais, Construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e Inhamuns, junto com pescadores e pescadoras de 07 dos 12 municípios acompanhados, estiveram reunidos virtualmente para discutir sobre os projetos de lei municipal. Participaram representantes do poder legislativo de quatro dessas cidades.

Tais projetos estão centrados em medidas de proteção social aos pescadores e pescadoras artesanais e também da pesca em si, ou seja, busca criar condições institucionais para que esta atividade continue existindo de forma sustentável. E por isso também aborda outros temas, como meio ambiente e recursos hídricos, que são intimamente relacionados à pesca.

“Essa mobilização é uma coisa inédita, pois tanto nos Sertões de Crateús e Inhamuns quanto em todo o estado do Ceará não existe um projeto de lei municipal que vise à proteção dos pescadores e pescadoras de açudes”, explicou Adriano Leitão, coordenador do Projeto Pescadores e Pescadoras Artesanais. Segundo ele, essas demandas chegaram desde um caminho que começou no ano 2013, quando a Cáritas Diocesana de Crateús se aproximou das comunidades pesqueiras, categoria muito invisibilizada naquele tempo e deu continuidade com o apoio de um co -financiamento da União Europeia em 2017 e desde de então estamos construindo coletivamente as propostas de leis.

João Rodrigues, vereador de Crateús, após reafirmar seu compromisso com a causa da categoria da pesca afirmou que “para que tenhamos políticas públicas transparentes e que deem resultados, é assim que temos que fazer: Juntar-nos, discutir e avaliar as várias opções e possibilidades que temos para fortalecer o bem estar da população pesqueira, ressaltando a importância do cuidado com o ambiente”.

Inicialmente, os projetos de lei serão apresentados na Câmara dos Vereadores dos municípios de Ipaporanga, Tamboril, Crateús, Novo Oriente, Independência, Arneiroz e Parambu ,“A caminhada ainda é longa, porém é o caminho certo para implantar políticas públicas, em âmbito local, capazes de dinamizar o setor pesqueiro em nossa região”, afirmou Ribamar do Nascimento, coordenador geral da Colônia Z58 de Novo Oriente.

*O Projeto Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais, Construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e Inhamuns, é uma realização da Cáritas Diocesana de Crateús em parceria com CISV e CPP e com o co-financiamento da União Europeia.

Por Angelica Tomassini, comunicadora popular da Caritas Diocesana de Crateús

Incidência Política: Pescadoras e Pescadores de Novo Oriente dialogam com a prefeitura

Ontem, 16 , a Coordenação Colegiada dos pescadores e das pescadoras da Colônia Z-58 se encontrou na comunidade Flor de Campo, em Novo Oriente, e de lá se reuniu virtualmente com os representantes da nova gestão municipal, para monitorar o andamento das decisões tomadas na última mesa de negociação, que houve em novembro 2019 e para negociar novas demandas. Participou Claudino Sales Neto, Secretário de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente. 

José Ribamar Nascimento, coordenador geral da Colegiada, manifestou a urgência de regularizar a documentação para o uso de um prédio escolar, localizado na comunidade Flor do Campo, e que há mais de um ano e meio deveria ter sido cedida para ser a sede da colônia. A conquista do prédio é fruto da mesa de negociação, porém os pescadores e as pescadoras nunca conseguiram usufruir dele por causa da burocracia que ainda não foi sanada. 

Os pescadores e as pescadoras também apresentaram para o secretário a necessidade da implementação de recursos técnicos que possam melhorar a qualidade do processamento do peixe. Já que o município de Novo Oriente receberá um recurso econômico via emenda parlamentar destinado à pesca artesanal, foi solicitada uma câmara frigorífica que beneficiará o coletivo e que, especialmente nestes tempo de pandemia, que causou a diminuição da demanda de peixe, permitirá o armazenamento do produto. 

Por último, os pescadores e as pescadores solicitaram agilidade na viabilização dos documentos requeridos para participar de editais públicos, como o DAP (Declaração de Aptidão ao Pronaf), título necessário para que os beneficiários da colônia possam manifestar interesse no Projeto São José IV, política pública do Governo do Estado do Ceará, que tem como objetivo aprimorar o acesso a mercados, adotar abordagens de resiliência climática e ampliar o acesso aos serviços de água e saneamento nas áreas rurais. 

O secretário Claudino Sales se declarou a favor das demandas dos pescadores e das pescadoras, e acrescentou que “esses momentos de diálogo são fundamentais para o desenvolvimento da atividade da pesca artesanal e para que vocês (pescadores e pescadoras) possam exercer sua profissão com o equipamento adequado e necessário”.  

A colônia Z-58 é beneficiária do Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais Construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e dos Inhamuns, realizado pela Cáritas Diocesana de Crateús em parceria com CISV e CPP, e co-financiado pela União Europeia.

Por Angelica Tomassini, comunicadora da Cáritas Diocensana de Crateús

COMUNIDADES TRADICIONAIS PESQUEIRAS TÊM MUITO O QUE COMEMORAR COM A POSSE DE JOE BIDEN E A DERROTA DE TRUMP E BOLSONARO

Donald Trump deixa a presidência dos EUA pela porta dos fundos da Casa Branca, com um índice de reprovação histórico, em grande parte porque o gerenciamento criminoso da pandemia já provocou 400 mil mortes naquele país. Criminoso, porque foi um grande agente de disseminação de mentiras, ironizando orientações de especialistas em epidemiologia, desacreditando a ciência e retirando a participação da principal potência econômica do mundo da Organização Mundial da Saúde (OMS). Contudo, tal negacionismo absurdo e genocida afetou também outras áreas fundamentais para a vida, como o combate às mudanças climáticas. Dessa forma, a posse hoje de Joe Biden é um alento não só para as pessoas daquele país, mas também para todas as pessoas que defendem o meio ambiente, inclusive as pescadoras e os pescadores de açude do Ceará.

E por que isso? Como já explicou Papa Francisco na encíclica Laudato Si, vivemos numa grande casa comum, que é o planeta. Somos parte de um grande sistema, onde cada ação realizada aqui, afeta ali, e se tivemos uma das maiores secas desde que se há registro nas regiões dos Inhamuns e Crateús, seguido de enchentes que arrebentaram barragens e causaram enormes prejuízos, os especialistas explicam que isso é consequência do aquecimento global, que só pode ser combatido se revermos de forma urgente a forma como construímos as riquezas no mundo. O mundo não pode resistir mais a tanto desmatamento, a tanta poluição, a tanta destruição de rios, nascentes, da fauna e da flora. O mundo não suporta mais o capitalismo.

As principais vítimas da consequente falta de água, devido às estiagens prolongadas e a poluição de mananciais, são as pessoas empobrecidas. As que historicamente foram colocadas à margem da sociedade. E nesse grupo encontram-se as comunidades tradicionais pesqueiras de açude. Ora, se não chove, o açude não enche. Se não enche, não há peixe. E esse grupo de pessoas, sobretudo as mulheres, que sempre foram invisíveis perante parte da sociedade, acabam ficando sem o principal meio subsistência. E foi bem durante essa grande estiagem que o Projeto “Pescadoras e Pescadores Artesanais: Construindo Bem Viver no Sertões dos Inhamuns e Crateús” iniciou os trabalhos, colaborando para que políticas públicas fossem conquistadas, cursos e oficinas que capacitaram tal público para diversificação das formas de gerar renda, etc.

Contudo, embora muito importantes, tais ações são paliativas diante do enorme desastre ambiental que estamos experienciando. O ano de 2020, marcado pela pandemia, pelo negacionismo de Trump e Bolsonaro, também foi o mais quente da história. Ambas as lideranças questionam as mudanças climáticas, disseminando discursos de “pós-verdade”, negando a ciência também para esse tema. Joe Biden, que não deve ser visto como o salvador do mundo, longe disso, já anunciou que os EUA vão retomar o Acordo de Paris, que prevê metas ambiciosas na redução da emissão de gases poluentes, para reduzir o aquecimento global. Com isso, o governo Bolsonaro vai ser pressionado por um dos principais parceiros comerciais a rever a política ambiental.

Ainda é cedo para dizer que isso, de fato, vai causar um impacto efetivo na forma como lidamos com nossa Casa Comum. Mas o fato é que a posse de Biden hoje é uma enorme derrota política para Bolsonaro, para o negacionismo, o fascismo, para as várias expressões de extrema direita que perigosamente se espalham pelo mundo. E, consequentemente, é sinal de esperança para as comunidades tradicionais, grandes guardiães da Mãe Terra. Hoje é dia de celebrar esse importante passo no chão do caminho que nos leva à sociedade do Bem Viver.

Por Eraldo Paulino, comunicador popular da Cáritas Diocesana de Crateús

RETOMADA DAS VISITAS DOMICILIARES NAS COMUNIDADES PESQUEIRAS

Fatima Veras, tecnica de campo do Projeto e Seu Antônio Pedro de Moraes, pescador artesanal da comunidade Piçarreira, Nova Russas

Ontem, 13,  teve a retomada do acompanhamento presencial das famílias pesqueiras beneficiárias do Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais, construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e Inhamuns, realizado pela Cáritas Diocesana de Crateús em parceria com CISV (Comunita, Impegno, Servizio, Volontariato) e o CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) e co-financiado pela União Europeia. A primeira visita domiciliar do ano de 2021, aconteceu na comunidade Piçarreira, na zona rural do município de Nova Russas. A técnica de campo, Fatima Veras, conseguiu visitar 7 famílias, alcançando no total 20 pessoas beneficiárias. 

Todas as orientações dos cuidados necessários que esse período de pandemia exige foram respeitadas. O objetivo das visitas era partilhar os desafios e os impactos da Covid-19 na pesca artesanal, mais especificamente nos pescadores e pescadoras artesanais que moram e trabalham no território Sertanejo. Segundo as pescadoras e os pescadores, o aspecto do isolamento social está afetando a categoria de maneira muito particular. A ausência da sociabilidade, tão característica do cotidiano e do trabalho, faz com que sentimentos como tristeza e solidão sejam maximizados, pois no mundo da pesca artesanal os momentos de vida quotidiana e de trabalho se entrelaçam.

Além do isolamento social, estão lidando também com a dificuldade de adquirir o material de pesca, já  que nestes meses de pandemia aqueles itens que são precisos para exercer a atividade, entre os quais galão, linhas, canoas sofreram um elevado aumento de preço. 

REALIDADE DAS MULHERES

O confinamento afetou também a realidade quotidiana das mulheres, que lutam para serem reconhecidas como pescadoras tanto no âmbito dos direitos, como no âmbito social. O isolamento social para as pescadoras foi muito impactante, pois sem a pesca e com os filhos e as filhas em casa, o lar tornou-se o centro das atenções delas. A sociabilidade e o trabalho delas foram reprimidos e elas estão ainda mais imersas em situação de vulnerabilidade psicológica e econômica, já que nestes meses desafiadores não conseguiram comercializar o pescado como de costume.

Fica claro que estes meses de pandemia não foram fáceis, porém, a categoria está unida, procurando um caminho para reinventar sua realidade de trabalhadores e trabalhadoras. Com o fim do auxílio emergencial, do Governo Federal, o desafio posto é encontrar estratégias para continuar a mobilização social e pressionar o poder público a garantir políticas públicas, na perspectiva da garantia do Bem Viver nessas comunidades.

Por Angelica Tomassini, comunicadora popular da Cáritas Diocesana de Crateús

PESCADORAS E PESCADORES PARTICIPAM DA OFICINA DE AVALIAÇÃO DE FINAL DE ANO COM TEMA SOBRE OS CUIDADOS DA VIDA

Por Angelica Tomassini, comunicadora popular da Cáritas Diocesana de Crateús e Fátima Veras, técnica do Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais: construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e Inhamuns

Na última quarta, 09, a equipe do Projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais: construindo o Bem Viver nos Sertões de Crateús e Inhamuns, realizado pela Cáritas Diocesana de Crateús (CDC), em parceria com a CISV e o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e Co-financiado pela União Europeia, terminou o processo de avaliação que cada ano é feita pelas e pelos beneficiárias/os do projeto. Nas reuniões realizadas virtualmente, foram feitas reflexões sobre conquistas e desafios neste ano marcado por pandemia, mas também por um bom inverno e construção de novas perspectiva de atuação.

Adriano Leitão, coordenador do projeto, Fátima Veras e Marcel Melo, técnicos de campo, facilitaram uma roda de conversa onde os cuidados com a vida foram o fio condutor deste bate-papo, caracterizado por uma escuta fraterna, uma acolhida sincera e o fortalecimento dos vínculos de amizade. As pescadoras e os pescadores partilharam suas preocupações devido à pandemia, mas também celebraram o ano que está a concluir e que foi caracterizado por momentos que trouxeram alegria e entusiasmo. A pescadora Valdirene Alves, moradora da comunidade de Piçarreira em Nova Russas contou que o seu filho voltou para casa depois de anos que estava no Rio de Janeiro, e relata “eram quatros anos que não via ele, essa visita me deixou o coração cheio de felicidade!”

O pescador Edicarlos Cavalheiro, da comunidade São Cipriano no município de Parambu, celebrou o inverno. Disse até que há muito anos não via tanta chuva. “No meio de tanto pavor por causa da pandemia, quero ressaltar que a gente tem que ser grato, nossos açudes estão cheios depois de cinco anos, os pescadores e as pescadoras estão pescando, é uma bênção grande!”, comemora com a voz trêmula de emoção. Houve quem partilhasse a conquista de um sonho da vida, como a pescadora Cláudia Lima da comunidade de Piçarreira em Nova Russas, que esse ano, após muitos sacrifícios, conseguiu abrir no município onde mora o restaurante/pousada que sempre desejou. Yasmina Bezerra, de Crateús, estagiária de psicologia na Cáritas Diocesana de Crateús compartilhou o orgulho em si mesma para ter chegado ao último ano da faculdade e acrescenta, “estou tão feliz de ter me aproximado da Cáritas! Tenho certeza que vai ser uma experiência de muito aprendizagem para minha vida pessoal e profissional”, prevê.

Partilhar as conquistas da vida significa celebrar quem somos e compreender a pesca artesanal, a luta quotidiana das pescadoras e dos pescadores de açude nos faz mergulhar nessa imensidão de saberes que esse povo tradicional tem e que nunca cansa de compartilhar com os outros. O 2020, além de trazer adversidades, também trouxe o impulso para resistir e ficar unidos, apreciando as pequenas coisas como a família, as amizades, as paixões. Deu o incentivo para cuidar mais que nunca da saúde física e mental e puxou para seguir em frente na mobilização da luta por mais direitos e para a melhoria da qualidade de vida nas comunidades pesqueiras. No ano que está a chegar, que será também o ano de conclusão do projeto, pescadoras e pescadores junto com a CDC continuarão a semear o Bem Viver na partilha e na solidariedade com a luta por uma vida digna e sustentável.